Ou “As pedras que aqui rolam não rolam como lá”
André Amaral | andre@musicomio.com.br
Leia também: O dia em que ouvi ecos distorcidos da canção do exílio
Pouco mais de uma década após tal emblemático episódio, compreendo de forma mais pura tais contundentes versos. Vai ver porque vivi mais (mas não o suficiente, talvez) pra sofrer e, por assim dizer, sacar a essência do blues. Fato é que esse hiato na timeline da minha pífia existência me deu substrato, cancha, traquejo ou coisa que o valha pra curtir intensamente o documentário “Stones in Exile”, que relata as idiossincrasias e excentricidades stoneanas que envolveram a gravação desse álbum maldito. Capitaneado pelos ilustríssimos senhores Jagger/Richards e Watts, dirigido por Stephen Kijak e produzido pela Passion Pictures, o vídeo reúne em uma hora e 10 minutos cenas de bastidores obscuros do espetáculo hedonista e sociossexual que a banda representava no início dos anos 70.
Em 1971, os Stones viviam um paradoxo perfeito. Mesmo com o status de maior banda do mundo (os besouros haviam cessado suas batidas um ano antes, deixando a pista livre para as pedras rolarem – falando metaforicamente pro leitor incauto não entender lhufas), eles estavam à beira da falência. Apesar da situação singular, a explicação se baseia numa matemática simples: eles torravam mais do faturavam. Ou seja, após gastarem o que tinham (e o que não tinham) em diversão (leia-se drogas), arte, luxo e finesses afins, os Stones precisaram atravessar o Canal da Mancha com o rabinho entre as pernas. Devendo até as cuecas para o fisco inglês, os caras foram de mala e cuia para a França, onde se espalharam pelo sul do país. A trama que os Stones tinham em mente era a de gravar um disco por lá (longe também da polícia inglesa, que tava no encalço dos malandros por conta da curtição deles com a heroína) e lançá-lo mais tarde numa tour pelos EUA, onde tirariam grana dos yankees pra honrar suas dívidas. Honesto, não? E antropológico, também.
Keith Richards foi parar em Villefranche-sur-Mer, um vilarejo paradisíaco pra cacete perto de Nice, no litoral mediterrâneo. Lá ele alugou uma PUTA mansão (onde o disco seria gravado) à beira-mar chamada Villa Nellcôte, que havia sido usada como bunker nazista na Segunda Guerra Mundial – sim, e ainda havia suásticas nas paredes depois de quase 30 anos. Mick, com sua necessidade imensa de figurar no jet-set (ao contrário de Keith, que tinha lá um jeitão mais lo-profile), foi para Paris curtir uma de casadoiro com a gatíssima Bianca, uma latina muy caliente da Nicarágua. Aliás, trechos da cerimônia de casamento aparecem no documentário. O mais afudê é que diversos músicos ingleses deram uma pausa nas gravações e foram prestigiar a parada, como os bitôus Ringo Starr e Paul McCartney, por exemplo. Muitos deles tinham mais o que fazer e foram embora após o casório. Outros, bem menos atarefados, estenderam o festerê na casa de Richards, onde certamente rolou um dos maiores festivais de aspiração de pó da história.
Além de trechos que sobraram em “Cocksucker Blues” – o documentário (sic) fake “proibidão” dos Stones rodado pelo fotógrafo Robert Frank (que assinou a capa de Exile on Mais St.) – as imagens e fotos em preto e branco que compõem Stones in Exile foram feitas pelo músico e fotógrafo francês Dominique Tarle. A história dele com a banda começou num belo e iluminado dia (literalmente) em que foi visitar Keith em sua funhouse. Papo vai, papo vem, o guitarrista convidou o cara pra ficar. “Só se preocupe com as imagens e a música. Deixa o resto comigo”, disse Keith.
Adivinha? Tarle ficou durante meio ano vivendo na mansão. E aproveitou a estada para mergulhar afú no life-style stoneano, estricnando-se às ganhas nos tóxicos.
Confira a terceira parte deste dossiê Stoneano nesta sexta-feira, só aqui no Musicômio.


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2 comments
Musicômio - Música é o nosso negócio | » Stones: la vie en rose says:
14/01/2011
[...] Leia mais sobre o dossiê stoneano do Musicômio: – O dia em que ouvi ecos distorcidos da canção do exílio – Les Rolling Stones? [...]
Vitor Simon says:
13/01/2011
Falando em Stones, adoro Sweethearts Together gravada no Vodoo Lounge, que tem no meio uma sanfoninha gaudéria. Dá até um susto na gente. O máximo.